15 de outubro de 2013

Gravity: O renascimento em queda livre

2001: A Space Odyssey, a obra-prima de Stanley Kubrick e talvez o melhor filme de ficção científica realizado até aos nossos dias, estreou em 1968  - antes de Neil Armstrong dar o "salto gigante para a Humanidade" e tornar-se no primeiro homem a pisar o solo lunar. E foram necessários 45 anos para que o realismo da visão de Kubrick do vazio espacial infinito que existe para lá da atmosfera terrestre, incontestado no grande ecrã com o assombroso bailado silencioso de homens e naves no negrume do vácuo, fosse revisitado com êxito. O autor da proeza foi o mexicano Alfonso Cuáron, com Gravity.

A referência ao clássico de Kubrick não é acidental: tal como o mestre norte-americano, Cuáron procurou em Gravity reproduzir o espaço de forma tão cientificamente realista quanto possível, procurando transpor para o grande ecrã a sensação de se estar suspenso na órbita da Terra - sem peso num vácuo onde o som não existe. Há falhas, claro, e as inevitáveis conveniências narrativas comuns a qualquer filme - mas essas, mesmo tendo já sido dissecadas à exaustão na Internet, em momento algum diminuem a experiência. 

Recorrendo ao mesmo truque de Kubrick (e de outros, como Danny Boyle no interessante Sunshine), Cuáron combinou a incomparável textura do silêncio do vazio com uma banda sonora magistral de Steven Price, encaixada com rigor na intensidade variável da narrativa. E esta decorre como uma dança impossível - oscilando entre os gestos lentos dos astronautas na execução das tarefas mais simples, como capturar um parafuso que se afasta do módulo, com o frenesim do impacto de detritos que espoleta a acção. Como é já apanágio de Cuáron, a tensão não é poupada, e transborda a cada cena do filme. 


(Doravante, os spoilers serão a norma)

Em termos técnicos, Gravity é um prodígio - a mais perfeita utilização do muito criticado 3D desde que James Cameron mostrou Pandora em Avatar (não por acaso, Cameron tem um agradecimento especial nos créditos), dando ao espaço onde se movem as personagens uma dimensão adicional e um maior realismo - acentuado sobretudo na exibição em IMAX, onde a estética do filme e a genialidade das longas e absorventes sequências de Cuáron se tornam num espectáculo magistral. 


Os longos planos que o realizador mexicano celebrizou em Children of Men são aqui elevados a um novo patamar. A cena inicial, com a apresentação das personagens e o desastre que atinge o vaivém, é disso um exemplo perfeito - o longo travelling que acompanha as várias personagens para mais tarde se centrar na protagonista, a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock), à deriva pelo espaço, transmite na perfeição a solidão absoluta do espaço, combinada com a desorientação que o acidente se desenrolou, rápido e lento em simultâneo. Não vi em cinema uma cena de tal intensidade desde que Dave saiu da "Discovery" no módulo para resgatar Poole - e o terror puro da experiência foi quase o mesmo.


Claro que, em termos narrativos, Gravity não podia estar mais longe de 2001: A Space Odyssey. Onde o clássico de Kubrick e Clarke explora a transcendência da Humanidade entre as estrelas através da odisseia de Dave Bowman, Gravity revela-se quase um estudo de personagem de Ryan Stone, uma cientista tão brilhante como solitária, na sua primeira viagem ao espaço. Para trás, na superfície azul do planeta que preenche o céu abaixo de si, deixou um passado repleto de mágoa e de incerteza, da perda da sua filha a uma vida errática e sem grande propósito para além do trabalho, ao qual devota todas as suas forças. A sua caracterização perfeita surge quando diz ao comandante da sua missão, o veterano Matt Kowalski (George Clooney), encontrar ali, no vazio silencioso da órbita baixa, um conforto solitário ao qual se poderia habituar (o contraste com o encantamento sóbrio de Kowalski na sua última missão - com Clooney no seu registo próprio - e com o entusiasmo contagiante de Shariff (Paul Sharma) é todo um tratado a esse respeito).


O desastre, provocado pela destruição de um satélite russo que provocou uma reacção em cadeia imprevisível manifestada numa nuvem de detritos a orbitar a Terra a grande velocidade, revela-se devastador: o space shuttle "Explorer" é destruído, a sua tripulação morta num momento; e Stone e Kowalski vêem-se à deriva no espaço, com pouco oxigénio e sem comunicações com a Terra. Com o transporte destruído, os dois astronautas vêem-se obrigados a improvisar uma solução, recorrendo às várias estações espaciais e respectivos módulos de transporte que existem em órbita - sempre contando com a ameaça dos detritos, que também as podem ter danificado.


Enquanto filme de sobreviência, Gravity é soberbo - mostrando com rigor e perfeição quão perigoso de facto é o espaço, e como a mais pequena falha pode causar um desastre de enormes proporções. Mas Gravity é mais do que uma história de adversidade e de confronto com os elementos - no caso, do elemento absolutamente indiferente e hostil do espaço. É, sim, a história do confronto de Stone consigo mesma, encontrando em si o desejo de viver no meio do mais completo desespero.


É enquanto metáfora de renascimento e superação que o filme de Alfonso Cuáron se eleva, com uma Sandra Bullock extraordinária a carregar a narrativa em ombros e a elevá-la acima das suas premissas mais simples. O desempenho dificilmente pode ser desvalorizado: da melancolia inicial ao pânico e à desorientação do acidente, do desespero que a leva quase a desistir de tudo até à determinação que a inflama e que a leva a tentar tudo - mesmo tudo - para sobreviver, ou pelo menos para dar um significado à sua morte - Bullock é excepcional em todos os momentos. E esta magnífica interpretação é combinada com mestria com imagens de grande beleza e carga simbólica, culminando na evocativa cena final que justifica o título - na queda entre as chamas e no renascimento da água para a terra enquanto metáfora da vida e da evolução, de um processo ancestral capaz de superar mesmo os mais improváveis obstáculos para se impor. O simbolismo pode parecer evidente, e, de facto, Cuáron não o esconde em entrelinhas ou em camadas de metáforas. Mas em momento algum isso lhe retira a sua força, ou a sua beleza.


Decididamente, a ficção científica cinematográfica de 2013 parece dominada por uma dupla improvável de realizadores mexicanos, ambos consagrados por êxitos passados*: depois de Guillermo Del Toro recuperar a magia dos mecha e dos kaiju na escala impossível e assombrosa de Pacific Rim, é a vez de Alfonso Cuáron trazer de volta para o grande ecrã a espectacularidade do realismo espacial. E fá-lo como só Kubrick tinha conseguido fazê-lo - com o silêncio opressivo do vácuo combinado com uma componente visual a todos os níveis exemplar. Da fotografia às CGI e à utilização exímia do vilipendiado 3D, em termos estéticos Gravity é praticamente irrepreensível. Só isto seria, por si só, mais do que suficiente para tornar o novo filme de Cuáron digno de uma visita ao cinema - e a uma sala IMAX, se possível. Mas o desempenho superlativo de Sandra Bullock e a história muito pessoal da queda e da ascensão da sua personagem elevam o filme a um patamar mais elevado. Se é ou não ficção científica, como se tem discutido nos últimos dias, pouco importa: Gravity é sem dúvida um dos melhores filmes da colheita de 2013. Indispensável. 8.7/10


Gravity (2013)
Realizado por Alfonso Cuáron
Argumento de Alfonso e Jonas Cuáron
Com Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma e Amy Warren
91 minutos

* Esses êxitos são, evidentemente, El laberinto del fauno para Del Toro e Children of Man para Cuáron.

2 comentários:

artur coelho disse...

Grande crítica. subscrevo. e sim, este junta-se ao pina de wenders e cave of forgotten dreams do herzog como um dos raros filmes que faz da estereoscopia uma estética pensada. o filme impressiona pela sua plausibilidade (dando ou tirando uns pormenores de licença artística).

João Campos disse...

Obrigado, Artur. Foi uma experiência memorável, este filme. Aquela cena inicial contínua é sem dúvida uma das melhores coisas que tive o privilégio de ver numa sala de cinema.