5 de julho de 2013

Witches Abroad, ou Granny Weatherwax versus os contos de fadas

Regresso à leitura sequencial de Discworld com Witches Abroad, o décimo segundo título da aclamada série de Terry Pratchett. Publicado originalmente em 1991, o título não engana: é uma história sobre as bruxas de Lancre, aquele pequeno reino encaixado nas vastas montanhas conhecidas como Ramtops; a terceira*, para ser mais preciso, a contar com Granny Weatherwax como protagonista, a quem se juntam Nanny Ogg e Magrat Garlick (e o título, já agora, é também um pun a uma deixa de Shakespeare). Se em Equal Rites o tema principal era as diferenças entre homens e mulheres no que à feitiçaria diz respeito e Wyrd Sisters consistiu numa elaborada paródia à obra de Shakespeare, em Witches Abroad Pratchett tece uma intrincada história em redor de... inúmeras histórias populares que toda a gente conhece - com os contos de fadas de Hans Christian Andersen e dos irmãos Grimm à cabeça, naturalmente, mas também outras histórias célebres que persistem na cultura popular.

E a verdade é que, entre os doze livros de Discworld que já li até hoje, posso dizer com segurança que Witches Abroad é um dos melhores - talvez só superado pela sátira non-sense de Guards! Guards!. O ponto de partida da história é simples: sabendo que vai morrer em breve, a bruxa Desiderata Hollow, que também era uma das duas "fadas-madrinhas" de uma jovem e pobre rapariga do reino distante de Genua, deixa a sua varinha mágica à ingénua Magrat Garlick - com a indicação expressa de que ela deve ir a Genua impedir Emberella (o pun, o pun..!) de se casar com um príncipe encantado (na verdade, o Duque daquele reino), e que deve fazer isso sozinha - sem a ajuda de Granny Weatherwax e de Nanny Ogg. Claro que quando as duas bruxas descobrem o que se passou, obrigam Magrat a levá-las na grande viagem até Genua.

Afinal, quão difícil pode ser impedir que uma rapariga do povo não case com um príncipe encantado? Em circunstâncias normais, muito pouco - mas num reino que vive preso em contos de fadas, com os finais felizes a serem obrigatórios por lei, as histórias têm de seguir os seu curso natural por cada estereótipo e por cada trope. Logo, a rapariga pobre tem de se casar com o príncipe. Claro, estamos em Discworld - neste mundo em forma de disco assente em quatro elefantes gigantes que viajam pelo universo sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica, as tropes existem para serem subvertidas e satirizadas, sempre com muito humor. Witches Abroad não é excepção, e pode quase ser lido - sem perda de diversão - como uma longa e muito adulterada lista de histórias populares, contos de fadas e narrativas célebres - as histórias da Cinderela, da Rapunzel, do Capuchinho Vermelho, dos Três Porquinhos, merecem destaque e são satirizadas de forma exemplar (a do Capuchinho Vermelho com uma surpreendente carga dramática sob a camada de humor), mas mesmo The Wizard of Oz (o filme) e The Lord of the Rings não escapam ao non-sense de Pratchett - com a reconstrução de duas cenas de The Fellowship of the Ring a ser absolutamente extraordinária pelo seu humor tão simples como eficaz.

Numa história com reinos encantados e fadas-madrinhas muito pouco convencionais, o leitor é apresentado também a um novo tipo de magia - a dos reflexos, através de espelhos - e fica a conhecer com mais profundidade Granny Weatherwax, personagem a quem é dada especial atenção e densidade. A célebre headology que a temida respeitada bruxa de Lancre popularizou é usada com frequência em situações hilariantes - o jogo de cartas no barco é um exemplo -, mas em Witches Abroad Granny vai também recorrer a magia um pouco mais elaborada para conseguir resolver as situações. Mas o que é interessante é a forma como Pratchett explora algumas vulnerabilidades que os leitores poderiam não suspeitar na personagem - e como essas aparentes fraquezas constituem uma boa parte da sua força. 

Não admira que Witches Abroad permaneça como um dos livros preferidos pelos fãs de Discworld - sem se desviar da sua fórmula habitual e sem abdicar da sua prosa simples, eficaz e cuidada, Pratchett tece uma história fascinante sobre um imaginário popular partilhado por todos os leitores. Quem já estiver familiarizado com o estilo, as personagens e o ambiente não deixará decerto de se apreciar um autor na plena posse das suas capacidades criativas, estilísticas e sobretudo humorísticas - com um profundo conhecimento sobre os vários temas que satiriza; e quem optar por este livro para entrar em Discworld terá o prazer de descobrir um universo literário onde nada é o que parece - e onde tudo serve de pretexto não só para uma boa gargalhada, mas também para contar uma boa história. Com final feliz ou não. 

* Considerando que Equal Rites, o terceiro livro da série, marca o início das histórias com Granny Weatherwax; Nanny Ogg e Magrat Garlick só apareceram pela primeira vez no sexto livro, Wyrd Sisters, pelo que o ponto de partida do arco narrativo das bruxas de Lancre é um tanto ou quanto ambíguo.

2 comentários:

artur coelho disse...

se eu algum dia ler terry pratchett (e esse dia está próximo...) tu és o culpado.

João Campos disse...

Heh. Vamos lá ver: sei que a fantasia não é exactamente o teu género preferido, e isso talvez te afaste um pouco de Pratchett - ou pelo menos de Discworld. No entanto, em termos de humor não tem par - o único comparável, se a comparação é possível (ou justa), será Douglas Adams. Mas há uma diferença muito substancial entre ambos: onde "The Hitchhiker's Guide to the Galaxy" é essencialmente comédia non-sense, "Discworld" cedo se afastou desse meio para se centrar na sátira. E aí as histórias que Pratchett tece são excepcionais.