21 de junho de 2013

Hellblazer: All His Engines: os deuses e os demónios de John Constantine

A minha apresentação a John Constantine não se deu com algum dos comics ou graphic novels do célebre detective do oculto inspirado em Sting que Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben criaram em meados dos anos 80 durante a série de Swamp Thing e que viria a ganhar protagonismo na série Hellblazer, da linha Vertigo da DC Comics. Deu-se, sim, com o filme de 2005 (com o Keanu Reeves como protagonista - logo falarei dele um dia destes), e independentemente da qualidade ou da fidelidade da adaptação, a verdade é que fiquei muito curioso com todo o conceito subjacente à personagem - uma curiosidade que foi aumentando com o tempo, à medida que fui descobrindo mais e mais banda desenhada e que fui lendo alguns fragmentos de informação sobre a série. Talvez devesse ter entrado no universo de Constantine na banda desenhada pelas suas primeiras aparições em Swamp Thing, ou mesmo pelos primeiros fascículos de Hellblazer; uma oportunidade da Feira do Livro, porém, levou-me a optar antes pela graphic novel Hellblazer: All His Engines.

(por acaso minto: a introdução a John Constantine deu-se, sim, alguns dias antes com a leitura de Preludes & Nocturnes, o primeiro paperback de The Sandman; numa das histórias, Morpheus conta com a ajuda de Constantine para encontrar um artefacto muito especial. Mas nesta história, por sinal excelente, o protagonista é Morpheus, e não Constantine, pelo que manterei All His Engines como a minha introdução a Hellblazer. Continuemos.) 

O que talvez não tenha sido um problema. Com texto de Mike Carey e ilustração de Leonardo Manco, All His Engines não conheceu publicação na sequência de comics de Hellblazer, tendo sido publicado em 2005 no formato de graphic novel - contendo uma história contida, repleta do flavour que tornou a série tão popular. Em Inglaterra (ao contrário do que mostra - ou não mostra - o filme, Constantine é britânico e não americano), várias pessoas entram em coma sem qualquer explicação - e entre elas Tricia, a neta de Chaz, eterno amigo (e sidekick) de Constantine. Na investigação do caso, a dupla viaja até à cidade de Los Angeles, onde encontram Beruel, um demónio interessado nos serviços de Constantine para lidar com a sua concorrência, e Mictlantecuhtli, deus Azteca da Morte, a perder influência mas não poder. Ao longo da narrativa, Carey vai mostrando através de flashbacks alguns momentos do passado de Constantine com influência nos acontecimentos do presente - e essas cenas são encaixadas na narrativa de forma muito natural, sem quebra de ritmo e sem se alongar para lá do estritamente necessário. Mas mais do que isso, introduz a amizade de Chaz e Constantine de forma muito eficaz, sem se perder na vasta bagagem de ambos, e revela o carácter polémico do protagonista através de uma caracterização interessante e sem papas na língua. Nesse ponto, é interessante notar como a tradutora da edição portuguesa da Devir, Beatriz Pereira, não só não poupou (e muito bem) no calão como também soube converter muito bem algumas das tão características tiradas da personagem.


Igualmente relevante é o trabalho artístico de Leonardo Manco, com o ilustrador argentino a dar vida própria e muita expressividade ao enredo convulso de Carey e à improvisação recorrente com que Constantine se move entre deuses da morte, demónios e autênticos cenários de inferno. Nos pontos mais intensos da narrativa, a arte de Manco é visceral, detalhada e expressiva; fora desses momentos, mantém uma grande solidez e muita expressividade. Vários painéis são memoráveis (as cenas da igreja têm uma arte formidável), com as criaturas sobrenaturais a serem desenhadas com muita expressividade (e especialmente... demoníacas). Os coloristas Lee Loughridge e Zylonol Studios complementaram com empenho o trabalho de Manco.

Olhando para All His Engines no seu todo, talvez não tenha sido uma escolha desadequada para me estrear no vasto universo de Hellblazer: a narrativa contida e fechada dentro do universo mais vasto onde Constantine se desloca mostra o seu carácter peculiar e o tipo de círculos por onde habitualmente se desloca - e a forma como aborda os vários obstáculos que surgem no seu caminho. Estará decerto longe de ser o mais interessante capítulo de Hellblazer - mas como introdução, funciona muito bem. 

Edição portuguesa: Hellblazer: Todo o Seu Engenho. Devir, 2005. Tradução de Beatriz Pereira.

10 comentários:

Nuno Vargas disse...

Não li este livro, mas gosto muito da personagem desde os tempos que lia Swamp Thing. Ainda assinei a série Hellblazer durante algum tempo, antes de perceber bem o dinheiro que andava a gastar em BD... Quando parei tinha o plano de comprar uma collected edition de vez em quando, mas já se passaram 10 anos e nunca se concretizou :)
É bom saber que a edição portuguesa mantém o nível do original.

João Campos disse...

A BD - toda a BD - tem esse problema. Também só posso coleccionar uma série de cada vez, e aos poucos. Por enquanto, estou ainda em "The Walking Dead"; quando acabar (ou quando não tiver mais álbuns para comprar enquanto o Kirkman não lançar um novo), passarei para "Hellblazer".

Talvez agora que "Hellblazer" já chegou ao fim a DC prepare Absolute Editions ao tipo de "The Sandman".

E sim, a tradução portuguesa tem uma ou duas falhas mas no geral aguenta-se mesmo muito bem.

Loot disse...

Não me lembro se tenho a edição em inglês ou português deste livro. Lembro-me que existe outra da Devir, a "ruas de londres" que compila algumas histórias e também é um excelente cartão de visista a este universo. Não sou o maior conhecedor, mas lembro-me que adorei o arco de "Family Man". Constantine é excepcional.

Comprar isto em comics é mto bonito em termos de colecção, mas muito dispendioso, as compilações saem sempre mais baratas. E agora os comics estão mais caros e tudo, sem dúvida que BD é o que me vai mais à carteira nos dias de hoje :S

João Campos disse...

Num caixote de segunda mão na Feira do Livro também vi esse outro, mas o orçamento só deu para um.

E sim, os paperbacks ficam mais caros do que as absolute editions, mas a leitura é também incomparavelmente mais prática. É por isso que vou comprando a um ritmo muito... alentejano!

Loot disse...

nem me estava a referir a esses, mas antes aos formatos comic mesmo, os fininhos. Do Hellblazer já é mais complicado comprar assim, mts devem estar esgotados. E estes são os mais valiosos mas em termos de colecção mas tb os mais caros.

O absolute é pouco prático, comprei alguns no início, nomeadamente Sandman porque a coloração era diferente e queria ter isso tb lol. São mto bonitos, mas pouco práticos de ler.

João Campos disse...

Pois, Loot, precisamente. Não me importava de ter as Absolute Editions de Sandman arrumadinhas na estante. Mas para levar para a esplanada ou para o autocarro, prefiro os trade paperbacks.

(daí a minha opção para coleccionar The Walking Dead)

Nuno Vargas disse...

Eu agora já só compro TP. São mais práticos que os comics mensais, tanto para ler como para guardar. E detesto a quantidade de publicidade em cada número.
As Aboslute Editions ainda não me convencem, até porque as últimas edições de TP de Sandman já têm uma qualidade de papel semelhante, se não igual a estas.

João Campos disse...

Na banda desenhada, os trade paperbacks são um maná. E na Amazon UK arranjam-se a preços muito bons.

Loot disse...

De longe os TPB são a melhor escolha em termos de preço e tb em termos de serem práticos (até na arrumação). Quanto ao resto já varia de caso para caso.

Por exemplo, há casos em que substituem o papel nos TPB e as cores não ficam tão boas como nos comics originais. Os comics originais tb valem pelas capas, mas normalmente são sempre os que têm a melhor qualidade.

Há muita gente que detesta o papel maioritariamente usado pela vertigo por exemplo, e eu adoro, o brilhante mts vezes estraga as cores. No fundo depende para que papel a coloração foi pensada.

Quanto aos absolute de sandman tive que os ter por duas razões. Uma porque mudaram a coloração, por outro tinha pelo menos uma história que não vem nos TPB e por isso cometi a loucura de a comprar. Pq eu já tinha a colecção toda em trade lol. Mas sandman é das minhas coisas favoritas, normalmente compro sempre tpb e sou bastante feliz :P

João Campos disse...

Um amigo também me falou desse detalhe nas cores de "Sandman". E também comprava as edições todas :p