22 de fevereiro de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (2): Contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard

Hoje, proponho um regresso a Dangerous Visions, a antologia editada por Harlan Ellison em 1967 que se tornou num dos livros fundamentais do movimento New Wave da ficção científica. Em artigos anteriores destaquei contos de Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss e Poul Anderson; hoje, dedicar-me-ei aos contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard.

If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon: Num futuro distante, no qual a Humanidade se viu obrigada a abandonar a Terra e a colonizar outros planetas - e perante uma surpreendente abundância de planetas habitáveis na galáxia (com mais ou menos terraformação) -, surgiram de forma mais ou menos espontânea vários tipos de sociedades em vários planetas diferentes, ligados numa vasta rede de comunicação e comércio. Entre os planetas habitáveis, porém, permanece um mistério: por que motivo o planeta Vexvelt permanece isolado, e ninguém deseja falar nele? Charli Bux tropeça com uma ponta do mistério e a sua curiosidade aumenta: Vexvelt é um planeta riquíssimo, com recursos de fazer inveja a qualquer outro planeta. Por que motivo, então, os seus habitantes permanecem afastados do resto da Humanidade? Com uma escrita bem ritmada e a alternar momentos dramáticos com alguns toques de comédia, Sturgeon coloca o protagonista em confronto com um dos mais antigos tabus das sociedades humanas. Ao opor o enquadramento social de Charli - com todos os seus preconceitos - à sociedade quase-utópica que reside em Vexvelt, Sturgeon desmonta pela lógica aquele tabu e procura demonstrar como o preconceito pode ser interiorizado sem sequer darmos por ele. 

The Happy Breed, de John Sladek: Em poucas páginas, John Sladek constrói uma premissa interessante: a partir do momento em que as máquinas podem substituir os humanos em todos os trabalhos (da recolha de lixo à cirurgia ou à engenharia) e assegurar todas as suas necessidades, básicas ou não, a Humanidade pode enfim dedicar-se ao mais perfeito hedonismo e às artes. Ou será que pode? Sladek coloca a questão de forma inteligente enquanto explora as consequências de uma sociedade na qual máquinas benevolentes tomam conta de todos os aspectos da vida humana em prol da felicidade de cada um. Mas será isso uma utopia de felicidade, ou uma distopia de estupidificação? À primeira vista, a premissa pode parecer banal nos dias que correm, mas é na execução que Sladek brilha - à sua escrita ritmada e concisa alia uma estrutura narrativa episódica assente em múltiplos pontos de vista que se vão misturando até ao twist final. O resultado é um conto tão divertido como perturbador, na definição e desconstrução de um nanny state absoluto - e algumas das suas ideias estão ainda muito presentes na ficção científica contemporânea.

The Recognition, de J.G. Ballard: Quase tão interessante como o conto de Ballard é a polémica que envolve a sua entrada em Dangerous Visions. O conto submetido pelo autor a pedido de Ellison não foi originalmente The Recognition, mas um outro, intitulado Assassination of J.F. Kennedy Considered as a Downhill Motor Race. Este conto, porém, nunca terá chegado às mãos de Harlan Ellison (é o que alega Ellison) por interferência do agente literário norte-americano de Ballard. The Recognition foi então submetido e aprovado, mas não sem algumas declarações polémicas de Ballard. De qualquer forma, e como disse, toda esta polémica não chega a ser tão interessante como o conto em si: The Recognition é uma das narrativas mais atmosféricas de toda a antologia. O protagonista observa a cidade durante uma caminhada, e depara-se com a chegada de um circo pequeno e especialmente desgastado - que, privado de um espaço mais central para o seu espectáculo, acaba por se instalar à beira rio, entre armazéns abandonados. O protagonista visita o circo, curioso, onde conhece a proprietária e o seu assistente - mas nas jaulas em exibição nem ele nem a população vão encontrar a exposição que esperam. Ballard cria um atmosfera tão evocativa como sombria, e a sua escrita excepcional dá forma a um dos melhores e mais estranhos contos da antologia. 

4 comentários:

Luís Filipe Silva disse...

O conto do Sturgeon está publicado em português - colecção Argonauta, "Mensagens do Futuro" do Asimov - ou no volume de continuação, que ficou com outro título...

Um conto questionável, pois os tabus não existem sem motivo (tudo na sociedade humana passa pelo crivo da selecção natural). Ainda assim, um tema-choque à boa maneira do autor.

João Campos disse...

Sim, os tabus existem por um (ou vários motivos), mas não deixa de ser muito interessante a forma como ele desconstrói aquele. Para além da escrita e da própria estrutura do conto, claro, que são excelentes. Fiquei com muita vontade de ler mais coisas dele.

Luís Filipe Silva disse...

Então: "More Than Human", em particular a secção do meio - um exemplo sublime de economia narrativa num cenário teatral e ainda assim conferir a necessária sense of wonder

João Campos disse...

Esse está na lista para comprar um dia destes. Aliás, esta antologia serviu muito bem para descobrir uma série de autores que ainda não tinha lido e aos quais tenho de dar mais atenção (Niven, Silverberg, Sturgeon, Anderson, Aldiss, Ellison - até já arranjei uma pequena antologia de contos dele). E ainda me faltam os três últimos. Mas quem me voltou a maravilhar nesta foi o John Brunner (logo falo dele noutro dia - mas se aquilo não é proto-cyberpunk...).