19 de fevereiro de 2013

Back to the Future Part 2, ou os diferentes passados vistos do futuro

Em Maio último, falei aqui de Back to the Future, o surpreendente filme de ficção científica de 1985 que criou a máquina do tempo mais icónica do cinema, o DeLorean (ponto não aberto a discussão) e que demonstrou que, no que às viagens no tempo diz respeito, o maior perigo não é ir ao passado e matar o avô, mas ir ao passado e "engatar" a mãe. Hoje volto ao tema mas para falar de Back to the Future Part 2, de 1989, sequela ao clássico de Robert Zemeckis com Michael J. Fox e Christopher Lloyd. Para todos os efeitos, seria difícil fazer uma sequela mais directa do que esta Part 2: o filme começa no exacto momento onde o primeiro termina, após a resolução da aventura de Marty McFly na adolescência dos seus pais em 1955. Doc regressa num DeLorean alterado com tecnologia anti-gravidade ("importada" do futuro) para avisar Marty e a sua namorada, Jennifer, de que no futuro os filhos (ainda por nascer) do casal se vão meter em sarilhos, e leva-os para 2015 com o objectivo de evitar esse destino. Biff, porém, vê-os partir em 1985 (para todos os efeitos, o presente narrativo), algo de que não se vai esquecer.

Em 2015, encontramos uma sociedade futurista que se tornou numa referência na cultura popular, com os seus carros voadores, os skates flutuantes (faltam dois anos, certo?), as roupas auto-ajustáveis, a publicidade a Jaws 19 (!). Marty consegue livrar o seu (futuro) filho de sarilhos, e acaba por adquirir numa loja um almanaque com todos os resultados desportivos da segunda metade do século XX, com o intuito de fazer fortuna em apostas quando regressar a 1985. Doc não lho permite, porém - mas o velho Biff, sempre à espreita, consegue deitar mão ao almanaque e, num golpe de sorte, rouba o DeLorean por tempo suficiente para regressar a 1955 (ano da viagem original de Marty) e dar o almanaque a si mesmo, alterando de forma drástica toda a linha temporal. Quando Marty, Jennifer e Doc regressam ao seu tempo original, descobrem uma distopia em 1985, com a cidade onde vivem entregue ao crime e dominada por Biff, que enriquecera nas apostas. Isto vai obrigar Marty e Doc a regressarem a 1955 para impedirem o jovem Biff de ficar com o almanaque - uma tarefa especialmente delicada quando não podem interferir com a viagem anterior de Marty...

Back to the Future Part 2 não é o original, e isso nota-se num enredo que, sendo interessante, é também  consideravelmente mais frágil - a premissa perdeu um pouco da sua frescura, e todo o plot device de Biff a roubar o DeLorean por breves momentos é implausível. O final também se revela problemático: Back to the Future deixou o final aberto para uma eventual sequela mas fechou o seu arco narrativo principal, enquanto o segundo filme termina de forma mais abrupta, sem saber como Marty e Doc se podem reencontrar. Estes aspectos, porém, acabam por ser compensados pelos excelentes momentos de comédia que as peripécias de Marty e Doc proporcionam, pela recriação de um "presente alternativo" de pesadelo e, sobretudo, pelo regresso ao cenário do primeiro filme, vendo-o de fora e tentando não o alterar. Back to the Future Part 2 pode não ser tão divertido ou inovador como o seu antecessor, mas manteve o espírito e deu-lhe um seguimento que, não sendo brilhante, também não desvaloriza o seu legado. O que, convenhamos, é algo que poucas sequelas conseguem.7.4/10


Back to the Future Part 2 (1989)

Realizado por Robert Zemeckis
Com Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson e Elisabeth Shue
108 minutos

2 comentários:

Luís Filipe Silva disse...

Encontrei o comentário mais interessante sobre este filme numa entrevista a um dos produtores em que afirmava que, por ter sido criado no contexto de Hollywood e ser um filme para as massas, o exercício de recriação e revisitação de Zemekis passaria despercebido para os críticos, ao passo que, se viesse de França, por exemplo, e tivesse um Bresson à cabeça, certamente que seria um dos filmes icónicos do cinema.

Bem, sim e não. Este filme não consegue ser apreciado sem o conhecimento do primeiro (vi-o no cinema com alguém que estava nesta situação e posso afirmá-lo por experiência). É um filme que tenta existir sem comprometer o primeiro pelo que existe nas entrelinhas, e nesse sentido é um exercício de reescrita (e releitura) interessante, que só uma viagem no tempo permitiria. Infelizmente, Zemekis não vai além disto - truques e dicas de enredo e àpartes que em nada enriquecem a pouca profundidade das personagens, do mundo, das consequências futuras dos actos do presente, etc, etc. Bresson sem dúvida que teria aproveitado o orçamento e a película para algo um pouquinho mais profundo (seria preciso o mínimo dos esforços). Assim, não passa de fantasia auto-congrulatória.

João Campos disse...

É um exercício interessante de reconstrução - o potencial é enorme, mas acaba por não ser aproveitado. Uma das coisas que Back to the Future faz muito bem é deixar o final aberto encerrando a história que estava a contar. Marty e Doc voltaram de 1955, e partem para o futuro - mesmo que não houvesse sequela, seria sempre um final excelente. Back to the Future 2 deixa o final suspenso para o terceiro filme - o que é quase sempre mau.

Ainda assim, vale a pena.