23 de outubro de 2012

A ficção científica e o cinema: Starship Troopers

Falar do cinema de ficção científica do final dos anos 80 e da década de 90 sem referir Paul Verhoeeven seria deixar de fora uma obra que, não alcançando o patamar de execução de outras obras suas contemporâneas (Aliens, Terminator), deixou uma marca indelével no género graças a adaptações atrevidas e a uma componente visual que pode não ser formidável, mas é única e inesquecível à sua maneira. Filmes como Robocop (1987), Total Recall (1990) e Starship Troopers (1997) fazem parte dessa obra tão característica da sua época. Falemos hoje do último.

É frequente vilipendiar Starship Troopers devido ao seu carácter de adaptação do clássico homónimo de Robert A. Heinlein, vencedor do prémio Hugo em 1960 e uma das mais icónicas obras da ficção científica militar (verdade seja dita, é também frequente vilipendiar Heinlein como um “fascista”, entre outros mimos, mas essa é outra história). De facto, se considerarmos o filme de Verhoeeven como uma adaptação do livro de Heinlein, então há que admitir que o filme falha, como teria inevitavelmente de falhar: Starship Troopers não é um livro de acção, mas uma reflexão política, social e militar de Heinlein feita a partir do olhos de um soldado, Johnny Rico, quando este se alista no Serviço Militar e parte para combater os “Bugs” que ameaçam a civilização humana. Há, contudo, quem veja (e louve) o filme de Verhoeeven não como uma adaptação do livro de Heinlein, mas como uma sátira a este e às suas visões militaristas e de cidadania. É uma visão possível, de facto; julgo, porém, que se há ali sátira, esta foi para todos os efeitos acidental (pelo que, caso seja intencional, falha também em toda a linha). Starship Troopers, o filme, não me parece pretender ser nem uma adaptação nem uma sátira a Starship Troopers, o livro; julgo, sim, que é um filme de ficção científica de acção baseado num clássico literário do género, omitindo as suas passagens de carácter mais filosófico para se centrar no miolo da narrativa: a guerra contra os “Bugs”. E, neste sentido, Starship Troopers, com todas as suas falhas e limitações – e são muitas – é um filme mesmo muito divertido.

Não é, claro, uma obra-prima. Longe disso. Não terá a tensão constante de Aliens, uma figura icónica como o Terminator de Schwarzenegger ou as batalhas de dimensão épica de Star Wars. Mas nem por isso deixa de ter uma narrativa muito bem ritmada, com acção intensa, frenética e muito sangrenta, uma personagem memorável (o Tenente Razsack, claro - as outras são bastante planas, reconheça-se), um elenco que apesar de globalmente pouco talentoso não deixa de ser interessante e algumas cenas que ficam na memória. Está longe de ser uma obra-prima, mas a qualidade que apresenta eleva-o bastante acima dos filmes “de sábado à tarde” que as emissoras nacionais, em sinal aberto ou no cabo, repetem ad nauseam. Would you like to know more? 6.8/10

Starship Troopers (1997)
Realizado por Paul Verhoeven
Com Casper Van Dien, Denise Richards, Dina Meyer, Neil Patrick Harris e Michael Ironside
129 minutos

Nota: para os interessados, foi feita no final da década de 90 uma série de animação CGI chamada Roughnecks: Starship Troopers Chronicles que me lembro de ser muito interessante. 

3 comentários:

CINE31 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CINE31 disse...

Ando há anos para ler o livro, mas não se proporcionou. Andava interessado em ver o anime dos ano 80, será que vale a pena?

João Campos disse...

É uma boa pergunta - só tive conhecimento desse anime há dias, quando fazia alguma pesquisa para este artigo. A série animada "Roughnecks" recomendo (se as minhas memórias da pré-adolescência não me traírem), e o livro, enfim, é Heinlein no seu auge.